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quarta-feira, 14 de julho de 2010
Estrangeira
Olhe só para isso... O que foi que eu disse na semana passada? O que foi mesmo, hein?! Você não lembra. É claro que não lembra. Fez tudo diferente do que combinamos. Olhe dentro dos meus olhos, porque eu quero que desta vez você lembre. Eu não vou repetir e nem vou mais insistir. Desta vez eu vou embora. Cansei de ser uma estrangeira na terra dos seus sonhos. Sofrer naufrágio por conta de sua canoa furada. Ver navios. Comer o pão que você amassou. Saber da missa apenas a metade. Sentimentos não são enlatados esperando por um abridor. Pelo menos, não os meus. Pense nisso.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Ponto Final
Um ponto final escrito em uma tela de mensagem instantânea. Achei que fosse um erro qualquer. Uma mensagem por engano. Um único ponto final. Que sentido fazia? Agora eu sei que ela estava colocando um ponto final em nossa história. E eu esnobando aquela mensagem. Que tolo que fui. Ela provou-me que eu a subestimei.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Esperança
Fazia tempo que não sentia aquele cheiro invadindo minhas narinas, que ficava mais forte quando o vento batia em minha direção. Quando ficou mais forte, minha curiosidade foi aguçada. Virei-me em direção ao perfurme exalado. Poc. Foi como se tivesse batido em uma parede de vidro. Invisível. Duro. Inquebrável. Tamanho foi o golpe, que senti gelar o meu corpo. Aquele arrepio que percorre do dedão do pé até o último fio de cabelo. Era ela. Não a via havia anos. Três anos quem sabe. Nem eu sabia. Preferi ignorar o fato que ela tinha partido da minha vida com avisos prévios. Com muitos avisos prévios, é verdade. Avisos que preferi não compreender. Avisos que preferi entender como devaneios. Bobagens. Afinal, que diferença ela faria à minha vida? Uma pessoinha qualquer informava ser subestimada. Haha. Subestimada sim. E por que estimar? Ela estava ali, a qualquer hora. Eu sabia dela sempre. Ela contava de si sem que eu perguntasse. Ela queria que eu participasse de sua. Ela falava coisas das quais eu não achava a menor graça. Ela envia mensagens de pouco sentido. Eu preferia as outras. Mas todas as vezes que as outras me deixavam, ela estava lá. Disposta. Que diferença fazia a minha vida? Quase nenhuma. Ela tinha alguns bom-gostos. Digo alguns, porque desconheço todos. Só sei de alguns. E precisava de outros?! Claro que não. Só o que me interessava e na hora que me interessava. E um dia ela sumiu. Passei a não saber mais dela. Nenhuma notícia. Ah, que bom! Ela me enchia o saco. E quando as outras me deixaram?! É, eu senti falta dela sim. Daquele perfume que impregnava minha sala. Daquele beijo que aquecia meu corpo. Daquele toque que causava calafrio. Volúpia. Agora ela acabou de passar por mim. Um vulto azul. Nem olhou para mim. Passou andando rápido. E eu fiquei aqui parado. Olhando se afastar extasiado. Sobre um belo salto. Meia-calça. Vestido alinhado. Jaqueta azul. Com ela combinou tão bem... Em passos rápidos. Ela nem me viu. Se tivesse visto, é claro, tinha parado para dar-me atenção. Será? Será que ela não me viu? Passou quase rente a mim?! Me viu sim. E por que não quis falar comigo?! Ainda a vejo. Está falando com algumas pessoas. Parece ser o centro das atenções. Linda. Linda. E aí? Devo ir lá e falar com ela? Devo dizer o que a ela? Saber por que ela sumiu? E será que ela quer falar comigo? Quantos anos... Se quisesse teria procurado, mas deixo que os dias passassem sem suas notícias. Dia-após-dia. Um aperto. Uma dúvida. Vou lá, ou não? Ai, meu Deus! Ela olhou para mim agora. Ela está olhando sim!!! Ela viu!!! Não tinha visto antes... Virá aqui. Nós vamos conversar. Eu vou dizer que quero sexo. Sempre muito direto. Ela vai ceder. E tudo será como antes. Eu só tenho que ficar aqui e esperar... Já se passaram 20 minutos. Tudo bem, está conversando com as outras pessoas. Opa. Entraram. E ela nem veio aqui cumprimentar-me? Que estranho. Vou até lá. Acho que é imaginação minha, mas a cada passo sinto o perfume mais forte. Está logo ali. "Oi"! Ela parou de conversar com os outros e virou-se para mim, sem nenhuma surpresa. Afastou-se do grupo. "Oi". Cadê o sorriso?! "Tudo bem"?!. "Sim e você?". Esperava que fosse me abraçar. Olhava-me nos olhos. Respirava cadenciadamente. Eu ofegante. Nervoso. Ela imóvel. Esperava que fosse ficar feliz em ver-me. Ela já tinha me visto. Ignorou-me. "O que faz por aqui"? "Por que quer saber"? Ai e agora? "Função fática". "E por que"? "Você sumiu e estou tentando reaproximar-me. Senti sua falta". "Não, você não sentiu". "Claro que senti". "Sei". "Não acredita. Mas pode acreditar. Que motivo teria para mentir"? "O mesmo pelo qual ligava". "Não. Na verdade eu preciso muito dizer algumas coisas a você. Inclusive desculpa". "Hummm. Desculpa aceita, mas agora é tarde". "Nunca é tarde". "Você está atrasado três anos". "É eu sei, mas não precisa ficar jogando isto na minha cara". "Não tenho esta intenção. Eu preciso voltar para os meus amigos, se me dá licença. Tchau Tchau".
domingo, 27 de dezembro de 2009
Possibilidades
No último domingo, Carol acordou bem cedo. Costume em nosso segundo ano de casamento. Desde que eu disse a ela para não comer tanto bolo de chocolate. Não importava frio, chuva, nem feriado. Foi correr. Não havia notado que ela estava mais magra, nem o quanto estava mais bonita. No primeiro ano, aos domingos, ficávamos de preguiça na cama, entre uma transa e outra. Ou será que o novo hábito começou no dia em que ela veio carinhosa provocar-me, eu resmunguei, virei para o lado e continuei a dormir. Ela não ousou mais. Não, não. O novo hábito começou quanto íamos ao aniversário de mamãe e eu disse a ela que aquele vestido ficava melhor um pouquinho mais folgado. Hummm... Acho que pode ter sido quando eu disse que era melhor a bermuda ao short. O maiô ao biquini. Passou a correr todos os dias. E eu que não acordo muito cedo, nem a via sair. Dia nenhum. Aos poucos sexo já não era rotina. Mudou para a situação de vez em quando. Também não tiro minha parcela de culpa. Problemas no trabalho fizeram com eu chegasse em casa silencioso. Cheio de grilos na cabeça. Deveria ter aproveitado o lar para relaxar. Mas não, remoía os pepinos e abacaxis, silencioso. E quando eu estava afim de descontrair-me, a saída com os amigos era indispensável. E ela foi ficando. Segundo plano. Terceiro plano. Ela respeitou a minha decisão. Também foi viver sua vida. Fez um novo curso. Conheceu novas pessoas. Escreveu uma peça de teatro. A estréia havia sido na noite da sexta anterior. Sucesso total. Com direito a foto no jornal e elogios. Só não fui convidado porque anunciei logo que já tinha compromisso quando ela perguntou se no sábado eu sairia novamente. De bate-pronto respondi que tinha. Afinal, não poderia deixar mulher querer me regular. Besta quadrada. Esqueci-me por completo que casei-me com uma mulher especial. Nunca pegou no meu pé. Quando li no jornal a matéria sobre a peça ainda fui tirar satisfação. Não me convidou. Nem eu dei chance ao convite. Para piorar o momento, tentei fazer-me de arrependido, contei as conversas da noite e minha dedução de que uma das minhas amigas deveria trocar o namorado e encontrar um cara bacana. Tal como você? Ouvi ela dizer rindo e eu respondi envaidecido. Sim. Então vá em frente, conquiste-a! Ouvi atônito a última parte. Desculpa, eu não entendi. O tempo passou e nós não o vivemos juntos. Vidas com novos rumos! É o título de sua nova peça?! Eu acho que está na hora de darmos novos rumos às nossas vidas, separá-las... Como assim, separação? Sim. Por quê, nos damos tão bem? Nunca brigamos. Foi quando ela mirou os meus olhos. Realmente nunca brigamos. Acho que este é o problema. Onde crescia o desejo, botrou apenas o companheirismo. Ganhou corpo. Expandiu. Tomou todo o espaço. Eu ainda quero a paixão sempre. Inutilmente, passei o dia inteiro tentando seduzi-la. Ela se limitava a dizer que não precisava, afinal, só estava fazendo tudo aquilo depois de nossa conversa. Provável que se a conversa não tivesse acontecido, tudo estaria na mesma.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Complicados e Apaixonads - Parte III
Confúcio
Heloísa saiu da sala numa seqüência de passos leves e lentos. Poucas vezes preocupou-se com a postura como agora. A mãe certamente faria um elogio se a visse agora. Procurava manter ombros, barriga, pescoço, cabeça em suas devidas posições elegantes. Entrou no elevador desejando que ele estivesse bem atrás de si, mas não estava. Segundos antes da porta fechar-se ainda olhou pelo corredor — ele ainda deve estar na sala — pensou. Limitou-se a olhar o pequeno livro branco.
Em sua casa, sua mãe recebe seu primo Fulberto. Informa que a filha não chegaria cedo e deveria demorar um pouco mais. Havia iniciado um novo curso após o trabalho. Fulberto pediu para esperar. Entrou e sentou-se no sofá. Estendeu a mão para alcançar a revista sobre a mesa. Sem muita paciência, folheava a revista buscando por algo que o entretesse. Estava ansioso por vê-la. Suas visitas eram freqüentes, mas a uma semana não via. Tinha iniciado um namoro, já terminado.
Observando o livro, Heloísa saiu do prédio. No sétimo andar conheceu o jovem professor interessante. Estava impressionada com a facilidade com que ele conseguia atrair a atenção dos alunos. Como disse a moça da secretaria, as suas aulas são muito apreciadas e preferidas entre os filósofos aspirantes. Muito atencioso também, emprestou-lhe o livro que parecia ser assiduamente consultado. Guardou-o cuidadosamente em sua bolsa. Esperou o semáforo indicar o momento em que os pedestres poderiam atravessar a rua. Lembrou-se dos olhos de Pedro. Hipnotizantes, pareciam familiares.
Enquanto dirige-se à sala dos professores, Abelardo pensa na jovem de modos antagônicos. Jeito moderninho, cuidadosamente desalinhado para aparentar mais casual do que realmente é. Quem não ouvisse sua opinião, acreditaria que seria apenas mais uma moça bonita e maluquinha, daquelas que estava habituado a encontrar nas festas do irmão DJ. Depois de suas perguntas e argumentos, a ele não restava dúvidas de que grandes atributos intelectuais e de grande beleza Heloísa era dona. Não gostava de emprestar livros. Poucas pessoas lembram-se de devolvê-los. Mas para ela valia a exceção. Tinha como certo de que desta vez Confúcio o ajudaria a conquistá-la. Trancou o seu armário assoviado.
Correu um pouco, em tempo, deslizou entre as portas do metrô. Heloísa repara um casal em troca de carinhos. Ela que não se impressionava com cenas românticas, permitiu-se a observar. Bateu a vontade de ter um namorado e não mais os casinhos fortuitos. Ouviu o apito agudinho, seu celular informava nova mensagem. Pegou-o. Seu primo avisava que estava em sua casa a esperá-la. — Tédio. — sussurrou consigo. Preferiria passar a noite lendo o livro e descobrindo mais sobre seu professor atraente. Ligou para casa.
— Alô, mãe.
— Oi, Fulberto está aqui, esperando por você.
— É eu sei, faz tempo que ele está aí?
— Sim, mais ou menos a uma hora. Eu avisei que você ainda demoraria, mas ele preferiu esperar.
— Ah... Logo hoje?! Queria dormir cedo. Pode chamá-lo, por favor?
— Claro. Ainda vai demorar?
— Não, estou bem perto. Mas ele não precisa saber disso, ok?
— Ok, já entendi. — a mãe ria, não aprovava a presença freqüente de seu sobrinho em sua casa, sempre na cola de sua filha.
— Cadê você.
— Oi, primo, tudo bem com você?
— Estaria melhor se você estivesse aqui. Trouxe um filme francês para vermos. Tenho certeza que irá gostar.
— Puxa... Logo hoje?! Eu estou indo a casa da Jaque para pegar uns livros que ela ficou de emprestar-me.
— Shhh... Vai demorar?!
— Acho que sim. Traga o filme outro dia. Assistiremos comendo pipoca doce.
— Se quiser, posso buscar você. Já está tarde. Não se preocupe, a Jaque disse que me deixará em casa.
— Não precisa dar trabalho a Jaque, sabe para mim será um prazer buscar a minha priminha predileta.
— Melhor não, Jaque quer conversar sobre o Luciano. Acho que o relacionamento deles está um pouco estremessido. Sabe como é, colocaremos a conversa em dia.
— Mas...
— Beijo, preciso sair do metrô.
Apanhou o livro na bolsa. Abriu em uma página a esmo e leu a última mensagem. "O sábio detesta aqueles que proclamam os defeitos e as faltas dos outros. Detesta também os homens de baixa categoria que denigrem aqueles que são de uma condição mais elevada. Detesta ainda os homens empreendedores que violam as leis e os homens audaciosos que têm inteligência estreita". — Hmmm... Lembrarei-me disso.
Heloísa saiu da sala numa seqüência de passos leves e lentos. Poucas vezes preocupou-se com a postura como agora. A mãe certamente faria um elogio se a visse agora. Procurava manter ombros, barriga, pescoço, cabeça em suas devidas posições elegantes. Entrou no elevador desejando que ele estivesse bem atrás de si, mas não estava. Segundos antes da porta fechar-se ainda olhou pelo corredor — ele ainda deve estar na sala — pensou. Limitou-se a olhar o pequeno livro branco.
Em sua casa, sua mãe recebe seu primo Fulberto. Informa que a filha não chegaria cedo e deveria demorar um pouco mais. Havia iniciado um novo curso após o trabalho. Fulberto pediu para esperar. Entrou e sentou-se no sofá. Estendeu a mão para alcançar a revista sobre a mesa. Sem muita paciência, folheava a revista buscando por algo que o entretesse. Estava ansioso por vê-la. Suas visitas eram freqüentes, mas a uma semana não via. Tinha iniciado um namoro, já terminado.
Observando o livro, Heloísa saiu do prédio. No sétimo andar conheceu o jovem professor interessante. Estava impressionada com a facilidade com que ele conseguia atrair a atenção dos alunos. Como disse a moça da secretaria, as suas aulas são muito apreciadas e preferidas entre os filósofos aspirantes. Muito atencioso também, emprestou-lhe o livro que parecia ser assiduamente consultado. Guardou-o cuidadosamente em sua bolsa. Esperou o semáforo indicar o momento em que os pedestres poderiam atravessar a rua. Lembrou-se dos olhos de Pedro. Hipnotizantes, pareciam familiares.
Enquanto dirige-se à sala dos professores, Abelardo pensa na jovem de modos antagônicos. Jeito moderninho, cuidadosamente desalinhado para aparentar mais casual do que realmente é. Quem não ouvisse sua opinião, acreditaria que seria apenas mais uma moça bonita e maluquinha, daquelas que estava habituado a encontrar nas festas do irmão DJ. Depois de suas perguntas e argumentos, a ele não restava dúvidas de que grandes atributos intelectuais e de grande beleza Heloísa era dona. Não gostava de emprestar livros. Poucas pessoas lembram-se de devolvê-los. Mas para ela valia a exceção. Tinha como certo de que desta vez Confúcio o ajudaria a conquistá-la. Trancou o seu armário assoviado.
Correu um pouco, em tempo, deslizou entre as portas do metrô. Heloísa repara um casal em troca de carinhos. Ela que não se impressionava com cenas românticas, permitiu-se a observar. Bateu a vontade de ter um namorado e não mais os casinhos fortuitos. Ouviu o apito agudinho, seu celular informava nova mensagem. Pegou-o. Seu primo avisava que estava em sua casa a esperá-la. — Tédio. — sussurrou consigo. Preferiria passar a noite lendo o livro e descobrindo mais sobre seu professor atraente. Ligou para casa.
— Alô, mãe.
— Oi, Fulberto está aqui, esperando por você.
— É eu sei, faz tempo que ele está aí?
— Sim, mais ou menos a uma hora. Eu avisei que você ainda demoraria, mas ele preferiu esperar.
— Ah... Logo hoje?! Queria dormir cedo. Pode chamá-lo, por favor?
— Claro. Ainda vai demorar?
— Não, estou bem perto. Mas ele não precisa saber disso, ok?
— Ok, já entendi. — a mãe ria, não aprovava a presença freqüente de seu sobrinho em sua casa, sempre na cola de sua filha.
— Cadê você.
— Oi, primo, tudo bem com você?
— Estaria melhor se você estivesse aqui. Trouxe um filme francês para vermos. Tenho certeza que irá gostar.
— Puxa... Logo hoje?! Eu estou indo a casa da Jaque para pegar uns livros que ela ficou de emprestar-me.
— Shhh... Vai demorar?!
— Acho que sim. Traga o filme outro dia. Assistiremos comendo pipoca doce.
— Se quiser, posso buscar você. Já está tarde. Não se preocupe, a Jaque disse que me deixará em casa.
— Não precisa dar trabalho a Jaque, sabe para mim será um prazer buscar a minha priminha predileta.
— Melhor não, Jaque quer conversar sobre o Luciano. Acho que o relacionamento deles está um pouco estremessido. Sabe como é, colocaremos a conversa em dia.
— Mas...
— Beijo, preciso sair do metrô.
Apanhou o livro na bolsa. Abriu em uma página a esmo e leu a última mensagem. "O sábio detesta aqueles que proclamam os defeitos e as faltas dos outros. Detesta também os homens de baixa categoria que denigrem aqueles que são de uma condição mais elevada. Detesta ainda os homens empreendedores que violam as leis e os homens audaciosos que têm inteligência estreita". — Hmmm... Lembrarei-me disso.
Complicados e Apaixonados - Parte II
O encontro
Pedro Abelardo prefiria ser chamado de Pedro, mas quase todos o conheciam por Abelardo. Minutos antes de começar mais uma aula, estava conversando com alguns de seus alunos em mais um embate de idéias. Foi interrompido pela entrada de uma nova aluna. Daí em diante já não conseguia ouvir direito o que seus alunos diziam. Procurava olhar disfarçadamente para a aluna, até ficar desconcertado quando seu olhar encontrou o dela. Ela desviou os olhas rapidamente. Ele olhou o relógio e imediatamente pediu aos seus alunos sentarem-se. Iria iniciar a aula.
— Em seus lugares. Por favor, sentem-se. — A voz suave e grave, gesticulava um pouco, sinalizando pedido de silêncio.
Os alunos ficaram em silêncio. Sentia-se quase nervoso. Achou tudo muito estranho. Diferente do habitual, iniciou a aula pela chamada. Queria saber o nome da nova aluna. Optou por ler o nome e o último sobrenome. Obteria a certeza do nome da bela moça que entrara e sentara-se na primeira cadeira da segunda fileira do seu lado esquerdo. Podia sentir o seu perfume, bastante atraente ao seu olfato. Ateve-se a fisionomia de cada aluno desta vez. Assim, poderia olhar para ela sem levantar suspeitas. Seu nome é Heloísa.
— Ok, vamos falar hoje de Kong Fu Tseu, sem dúvida uma das maiores personalidades da China. O pensador chinês é também conhecido como Confúcio. Não fundou religião alguma, apenas externou conceitos de moral e sabedoria que até hoje constituem verdadeiros ensinamentos. — A visão de Heloísa o distraía um pouco. Perdeu-se em alguns momentos na linha do raciocínio. Então decidiu evitar olhar em sua direção. A aula foi agitada. Os alunos perguntaram e opinaram. Heloísa também contou sua opinião. Abelardo demonstrou entusiamo ao ouvir sua voz. Procurou disfarçar. — Espero que ninguém tenha notado — pensou. Ao fim da aula, Heloísa foi falar com ele.
— Abelardo?
— Pedro, por favor.
— Mas todos os chamam de Abelardo.
— É, eu sei, e não entendo. Pedro é tão mais fácil. Menos letras a pronunciar.
— Deve ser por implicância - Heloísa riu.
Pedro também achou graça. Mais do que deveria. O seu sorriso era perfeito. A boca e os dentes poderiam estampar qualquer caixa de creme dental. Então ela continuou.
— Pedro, você admira muito Confúncio, não é?
— Sim, admiro.
— Por quê?
Pedro franziu a testa. Não esperava a pergunta à queima-roupa. Soma-se o fato de que ele estava encantado. Gaguejou.
— Ainda na infância, quando indagado pela sua dedicação aos estudos, respondeu: "Assusta-me a última parte da vida. Aquele que chega aos quarenta ou aos cinqüenta anos sem nada ter aprendido não se encontra em aterradora situação? Eu sei que, para estudar, o futuro não vale tanto quanto o presente". Tão cedo aprendeu a refletir. Deste ato advém minha admiração por Confúcio.
— Entendi — respondeu Heloísa, acenando a cabeça com suavidade. — Tudo isto é muito novo para mim. Pode indicar-me algum livro.
Sem pensar, Abelardo virou-se à mesa, apanhou um livro pequeno, fino e branco. Na capa estava escrito "Confúcio Vida e Doutrina". Voltou-se a Heloísa oferecendo o livro.
— Leve este. Acho que vai gostar. — havia um leve sorriso em seus lábios que não conseguia disfarçar.
— Obrigada. — Passou a mão pelos longos cabelos castanhos, parecia animada. — Bem... Então isso é tudo. Gostei muito da minha primeira aula de filosofia.
— Que bom, fico feliz.
— Preciso ir agora. Obrigada. — Esticou-se um pouco e deu um beijo no rosto de Abelardo, ou melhor, Pedro. Para ela, seria Pedro apenas.
Pedro Abelardo prefiria ser chamado de Pedro, mas quase todos o conheciam por Abelardo. Minutos antes de começar mais uma aula, estava conversando com alguns de seus alunos em mais um embate de idéias. Foi interrompido pela entrada de uma nova aluna. Daí em diante já não conseguia ouvir direito o que seus alunos diziam. Procurava olhar disfarçadamente para a aluna, até ficar desconcertado quando seu olhar encontrou o dela. Ela desviou os olhas rapidamente. Ele olhou o relógio e imediatamente pediu aos seus alunos sentarem-se. Iria iniciar a aula.
— Em seus lugares. Por favor, sentem-se. — A voz suave e grave, gesticulava um pouco, sinalizando pedido de silêncio.
Os alunos ficaram em silêncio. Sentia-se quase nervoso. Achou tudo muito estranho. Diferente do habitual, iniciou a aula pela chamada. Queria saber o nome da nova aluna. Optou por ler o nome e o último sobrenome. Obteria a certeza do nome da bela moça que entrara e sentara-se na primeira cadeira da segunda fileira do seu lado esquerdo. Podia sentir o seu perfume, bastante atraente ao seu olfato. Ateve-se a fisionomia de cada aluno desta vez. Assim, poderia olhar para ela sem levantar suspeitas. Seu nome é Heloísa.
— Ok, vamos falar hoje de Kong Fu Tseu, sem dúvida uma das maiores personalidades da China. O pensador chinês é também conhecido como Confúcio. Não fundou religião alguma, apenas externou conceitos de moral e sabedoria que até hoje constituem verdadeiros ensinamentos. — A visão de Heloísa o distraía um pouco. Perdeu-se em alguns momentos na linha do raciocínio. Então decidiu evitar olhar em sua direção. A aula foi agitada. Os alunos perguntaram e opinaram. Heloísa também contou sua opinião. Abelardo demonstrou entusiamo ao ouvir sua voz. Procurou disfarçar. — Espero que ninguém tenha notado — pensou. Ao fim da aula, Heloísa foi falar com ele.
— Abelardo?
— Pedro, por favor.
— Mas todos os chamam de Abelardo.
— É, eu sei, e não entendo. Pedro é tão mais fácil. Menos letras a pronunciar.
— Deve ser por implicância - Heloísa riu.
Pedro também achou graça. Mais do que deveria. O seu sorriso era perfeito. A boca e os dentes poderiam estampar qualquer caixa de creme dental. Então ela continuou.
— Pedro, você admira muito Confúncio, não é?
— Sim, admiro.
— Por quê?
Pedro franziu a testa. Não esperava a pergunta à queima-roupa. Soma-se o fato de que ele estava encantado. Gaguejou.
— Ainda na infância, quando indagado pela sua dedicação aos estudos, respondeu: "Assusta-me a última parte da vida. Aquele que chega aos quarenta ou aos cinqüenta anos sem nada ter aprendido não se encontra em aterradora situação? Eu sei que, para estudar, o futuro não vale tanto quanto o presente". Tão cedo aprendeu a refletir. Deste ato advém minha admiração por Confúcio.
— Entendi — respondeu Heloísa, acenando a cabeça com suavidade. — Tudo isto é muito novo para mim. Pode indicar-me algum livro.
Sem pensar, Abelardo virou-se à mesa, apanhou um livro pequeno, fino e branco. Na capa estava escrito "Confúcio Vida e Doutrina". Voltou-se a Heloísa oferecendo o livro.
— Leve este. Acho que vai gostar. — havia um leve sorriso em seus lábios que não conseguia disfarçar.
— Obrigada. — Passou a mão pelos longos cabelos castanhos, parecia animada. — Bem... Então isso é tudo. Gostei muito da minha primeira aula de filosofia.
— Que bom, fico feliz.
— Preciso ir agora. Obrigada. — Esticou-se um pouco e deu um beijo no rosto de Abelardo, ou melhor, Pedro. Para ela, seria Pedro apenas.
Complicados e Apaixonados - Parte I
Apresentando Pedro Abelardo e Heloísa
Extraídos da vida real, Pedro Abelardo e Heloísa viveram no século XII. Agora no século XXI, reencontram-se mais uma vez.
Pedro Abelardo tem 26 anos e é um jovem professor de filosofia. Acaba de concluir seu mestrado. Polêmico, adora discutir sobre política, religião e futebol. Seus pais moram no interior de São paulo e ele divide o apartamento com o irmão, 2 anos mais novo. Divide seu tempo entre seus estudos e aulas. Pretende publicar em breve seu livro sobre o pensamento filosófico contemporâneo. Ministra aulas na universidade onde graduou-se e em uma escola de filosofia. Terminou um namoro de dois anos. Está curtindo ficar sozinho, pelo menos até achar alguém especial. Por enquanto, curte a vida notruna com o irmão, que faz bicos como DJ. Trabalharia com música se não gostasse tanto de filosofia.
Heloísa tem 21 anos, recém-formada em Letras - Tradução e adora línguas. Fala fluentemente inglês, francês e espanhol. Conseguiu emprego em uma editora. Não ganha muito. Apenas o suficiente para sair com os amigos; comprar seus livros, discos e dvds; e cuidar da vaidade. Nas horas vagas, ouve rock e escreve histórias. Blogueira, procura por inspiração para escrever o livro que a deixará rica e famosa. Mora com a mãe, mas de vez em quando dá um tempo na casa do pai. Filha única, acha ótimo poder morar em duas casas e ter a atenção exclusiva dos pais. Nunca namorou sério. Prefere o flerte. Na busca por novas idéias, resolve freqüentar aulas de filosofia em uma escola próxima ao trabalho e conhece Abelardo.
Abelardo e Heloísa imediatamente sentem atração um pelo outro, mas as características de ambos são incompatíveis. Durante os dias seguintes eles se encontram periodicamente, mas tudo parece conspirar para que eles sempre estejam separados, especialmente pela presença do primo Fulberto, apaixonado por Heloísa.
Extraídos da vida real, Pedro Abelardo e Heloísa viveram no século XII. Agora no século XXI, reencontram-se mais uma vez.
Pedro Abelardo tem 26 anos e é um jovem professor de filosofia. Acaba de concluir seu mestrado. Polêmico, adora discutir sobre política, religião e futebol. Seus pais moram no interior de São paulo e ele divide o apartamento com o irmão, 2 anos mais novo. Divide seu tempo entre seus estudos e aulas. Pretende publicar em breve seu livro sobre o pensamento filosófico contemporâneo. Ministra aulas na universidade onde graduou-se e em uma escola de filosofia. Terminou um namoro de dois anos. Está curtindo ficar sozinho, pelo menos até achar alguém especial. Por enquanto, curte a vida notruna com o irmão, que faz bicos como DJ. Trabalharia com música se não gostasse tanto de filosofia.
Heloísa tem 21 anos, recém-formada em Letras - Tradução e adora línguas. Fala fluentemente inglês, francês e espanhol. Conseguiu emprego em uma editora. Não ganha muito. Apenas o suficiente para sair com os amigos; comprar seus livros, discos e dvds; e cuidar da vaidade. Nas horas vagas, ouve rock e escreve histórias. Blogueira, procura por inspiração para escrever o livro que a deixará rica e famosa. Mora com a mãe, mas de vez em quando dá um tempo na casa do pai. Filha única, acha ótimo poder morar em duas casas e ter a atenção exclusiva dos pais. Nunca namorou sério. Prefere o flerte. Na busca por novas idéias, resolve freqüentar aulas de filosofia em uma escola próxima ao trabalho e conhece Abelardo.
Abelardo e Heloísa imediatamente sentem atração um pelo outro, mas as características de ambos são incompatíveis. Durante os dias seguintes eles se encontram periodicamente, mas tudo parece conspirar para que eles sempre estejam separados, especialmente pela presença do primo Fulberto, apaixonado por Heloísa.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Ela
Ela sempre soube o que fazer. Sempre tão direta. Tomava decisões à queima-roupa. Acredito que calculou cada detalhe do que sinto agora. Consigo imaginá-la pensando como eu estaria agora. Sentado em uma cadeira, sozinho, bebendo o último gole de vinho. Confuso. Arrependido sem admitir. Quando foi que pensou em tudo? No último dia em que a vi, ou meses antes? Se no último dia, é surpreendente por ter iniciado tão rapidamente minha nova vida. Se meses antes, é surpreendente por ter previsto o que ocorreria e preparar-se sem demonstrar o menor ardor, o menor tremor, o menor fervor. Não duvido de sua capacidade. Seja qual for a alternativa, ela tiraria de letra. Quando casei-me com ela, já era uma escritora bastante conhecida e de posses. Foi em regime de separação de bens. Dizia que a comunhão separava mais do que aproximava. Eu aceitei assim. Não me arrependo. Nunca faltou-me algo enquanto moramos debaixo do mesmo teto. Ela não me sustentava. Continuei trabalhando na mesma agência em que a conheci. Sou publicitário. Nós a convidamos a participar em uma campanha. Suas idéias. Seu estilo. Seu perfume. Seu sorriso. Seus olhos. No dia seguinte, acordei em uma cama que tornou-se bastante conhecida. A mesma durante três meses. Não tinha o que esperar. Disse que queria casar-me. “Com quem?”. “Com você”. Ela sorriu. “Sim”. E cama foi a mesma por mais cinco anos. Conforto. Apenas não pagava contas que não feitas por mim. Não fazia compras que não fossem de minha vontade. Ainda recebia mimos vez ou outra. Na verdade ela sabia cuidar de mim. Ela sabia dar-me atenção. Achava exagero, mas era na medida. Não percebi. Não dei valor. Bertha era a nova colega de trabalho. Bonita. Muito bonita. Dona de um charme tão feminino. “Inha”. Lindinha. Cheirosinha. Meguinha. Charmosinha. Encontros íntimos e fortuitos. Pedidos para uma maior freqüência. Ela exigia mais. Eu queria mais. Era um belo apartamento de quatrocentos metros quadrados. Decoração simples, de ar sofisticado. Prática como minha esposa. Sem muitos empregados, que só apareciam em alguns dias da semana para fazer o serviço combinado. Isso nos permitia maior privacidade. Em uma noite, chegava perturbado. Uma amante. Eu não estava feliz. Uma esposa dedicada. Eu não queria vê-la. Dúvidas. Muitas Dúvidas. Bertha queria mais. Eu também. E ela? Sempre me recebendo tão bem, quando em casa chegava. Eu áspero. Ela simpática. Eu áspero. Ela mais simpática. Eu áspero, desviei-me de seu carinho. Ela mais simpática comentou algo. Eu mais áspero não ouvi e disse querer ficar sozinho. Ela calma. "Ei, esta não deveria ser aquela parte em que você deveria dizer que quer ir embora? Talvez esteja com receio de dizer-me. O que te impede". Fiquei zonzo. Ela sabia? Como? Sempre fui tão discreto! “Se preferir, hoje mesmo pode ir para outro lugar. Apenas deixe o endereço para pedir que alguém entregue seus pertences”. Conversamos. Ela ofereceu alugar um apartamento por seis meses. Informou que cuidaria de tudo para que me fosse entregue as chaves amanhã mesmo. A noite já estaria em um novo lar. Duvidei. Ela disse para não duvidar. Aceitei. Ela dormiu no quarto de hóspedes. Quando acordei, ela já não estava. E não voltei a vê-la. Fim de tarde, ainda no trabalho, recebi de um entregador um envelope e uma caixinha. No envelope estava o pedido de separação e o contrato de aluguel de um apartamento em área de classe média alta. Ambos para serem assinados, originais e cópias. Assinei e devolvi ao portador do nosso fim. Uma cópia de cada documento foi deixada comigo. Na caixinha estava as chaves e o endereço do apartamento. Da noite para o dia estava separado. Quando entrei, notei que ela conhecia-me bem demais. Não sei como conseguiu, mas o apartamento fora entregue mobiliado de uma forma que adorei. Sobre a cama, uma pasta com notas fiscais. Todos os móveis foram comprados em meu nome e naquele dia. Como conseguiu? Como fez o tempo ser suficiente? Nem mesmo deixou de dar-me uma adega climatizada com quatro garrafas dos meus vinhos prediletos. Liguei para Bertha. Ela passou a noite comigo. Tomei o cuidado de deixar claro que seríamos namorados, mas não mais que isso. Queria vê-la sempre, mas não todo dia. Em cada um dos cento e oitenta e três dias lembrei ela. Tenho certeza que cada detalhe daquele apartamento foi calculado para este fim: arrependimento. Alô? Rafaela?
sábado, 24 de maio de 2008
Cena de cinema - parte II
Nina enxuga os olhos com uma das mãos. Olha no retrovisor. Vê a mancha de maquiagem borrada. Alcança a bolsa no banco ao lado. Abre a bolsa sem tirar os olhos da estrada. Pega o lenço. Tenta limpar o rosto. Esfrega um pouco. Olha mais uma vez no retrovisor. Esfrega mais. Contenta-se com a imagem de si que vê. Lembra-se de como conheceu Beto. Um homem bonito, de sorriso ladino, olhar seguro e atos escusos. Seu irmão também não era flor que se cheirasse. Até hoje não sabe o que havia no envelope, muito menos no pacote. Seu irmão viajou logo depois e não retornou. Já faz quase um ano. Não era algo que incomodasse. Não importava o que faziam ou deixava de fazer. Beto jamais comentou sobre Pedro. E nunca soube que Pedro e ele se conheciam até o dia da troca das encomendas. Muitos amigos de seu irmão iam à sua casa, mas Beto nunca esteve lá. Logo depois que Pedro viajou, ela procurou Beto para continuar o que começou naquele dia. Ele pareceu gostar de sua presença e ela foi ficando. Ainda que em todas as manhãs saísse de casa, carregando uma maleta e retornando só à noite, ele voltava para ela. Era assim que pensava. Era assim que preferia pensar. No início, ouvia o barulho do carro e já corria para a porta. Quando ele a abria, dava de cara com ela. Isso já era esperado, mas mesmo assim fazia-lhe carinhos, às trazia um presente. Lembrava-se da sensação de ser suspensa no ar para receber um beijo. Quase sempre terminavam na cama antes do jantar. Depois não. Chegava quieto, quase sempre de semblante sombrio. Afastava-a quando se aproximava. E só com muita insistência um beijo era estalado na testa. O que mais doeu foi ouvi-lo dizer que sentia saudade de quando tinha a casa só para ele. Liga o velho rádio. Há uma canção alegre conhecida. Põe-se a cantarolar. Anima-se um pouco. Coloca a mão esquerda fora da janela para sentir a brisa do caminho. Depois deixa apenas o cotovelo para fora da janela. A estrada é longa e não faz idéia de onde vai parar. Vê uma placa, a primeira em horas. Pára no acostamento. Pega o mapa. Beto acelera tudo o que pode. Quer alcançar Nina e trazê-la ainda para o jantar. Pensa em ele mesmo arrumar a mesa. Colocar a toalha para ocasiões especiais, usar algumas velas. Cozinhará macarrão e fará o molho que aprendeu com sua falecida avô. Ela esperaria na sala, com o seu cheiro de flores. Iria servi-la de vinho. Conversariam um pouco durante o jantar. Muitos risos e sorrisos. Ao final, pensa pedi-la em casamento. Como um perdigueiro, observa a paisagem árida. Talvez já devesse ter alcançado Nina. Preocupa-se. Nina abre o mapa, localiza a estrada em que está. Sabe que a vinte quilômetros encontrará um posto. Já será noite. Poderá abastecer o carro. Dez quilômetros à frente estará a entrada de uma cidade. Poderá comer e descansar por lá. Fecha o mapa. Liga o carro e retorna à estrada. Beto já deveria ter alcançado Nina na estrada. “Ela é bem prudente atrás de um volante. Tem o hábito de manter-se em velocidade controlada”. Desconfia pela primeira vez que tomou o rumo errado. “Outro carro deve ter passado depois de Nina. Ela virou à esquerda. E essa agora!” Freia o carro. “Droga! Droga! Droga! Voltar levaria muito tempo”. Aí é que se perderia de Nina. Só havia um jeito: ver onde a estrada da esquerda levaria e contornar o caminho. Nina não dirigiria a noite. Talvez parasse em algum lugar para dormir. Confere no mapa o caminho. Ele procuraria por todos os hotéis até achar o carro de Nina. Se fosse bem rápido, talvez a encontrasse ainda dormindo. Então faria uma surpresa. Liga o carro.
domingo, 18 de maio de 2008
Terças-feiras
O mundo está cheio de terças-feiras. Algumas das nossas não foram boas. Não foram mesmo. Sempre houve um D de desventuras. Hoje é terça-feira. Pensei ter visto o seu rosto, mas simplesmente decidi olhar para o outro lado da rua. Um menino e sua mãe sorriam. Ele carregava um carro novo, recém-saído de uma loja de brinquedos. Foi como andar pelo estacionamento fazendo pose de bacana... Para ninguém ficar sabendo que esqueci onde estacionei o carro. Da mesma forma, queria que ninguém ficasse sabendo que eu não esqueci você. Senti um breve desespero em meio a uma roda de imagens fotografadas na mente, que giravam e giravam em um carrossel de recordações. Voei ao nosso passado naquele avião de papel que fizemos. Aquele avião, que pegou uma corrente de ar, voou tão alto e não voltamos a vê-lo. Apenas imaginamos por onde ele pode ter ido e como seria se tivéssemos ido junto com ele a um lugar novo e bonito. Um lugar calmo, de sabor feliz e cheirando a emoção. Senti saudade. Tive medo de que você não se lembrasse de mim e nem de nós. Qual teria sido a viagem dos nossos sonhos? Depois daquela outra terça-feira, eu não voltei a ligar. Você também não ligou. Eu queria ter dito, você também não disse. O que poderia ser mudado, se não tivéssemos medo de nada? Se você prefere, eu posso dizer a verdade. A verdade não foi dita, apenas as percepções. Dizem que a caneta é mais poderosa do que a espada... Mas não mais do que a boca! Que jogo bobo foi este, não? Não combinamos as regras. Seguimos jogando desde o primeiro minuto em que um de nós disse algo que o outro não gostou de ouvir. Para dizer a verdade, nem lembro o que foi. Parece agora tão sem importância, porém serviu apenas para contar mais um ponto. Um após outro. O placar foi se afastando do zero a zero. Pontos se acumulando junto com as mágoas. No mesmo balde. Saímos jogando "faça o que o mestre mandar" cada vez mais. Vez ou outra eu era o mestre. Vez ou outra era você. Você passou. Senti a brisa do seu movimento carregada de seu perfume. Você não mudou o perfume, nem falou comigo. Eu também não falei. E por que você não falou? O que você pensou. Vontade de correr passos atrás e parar apenas em sua frente. E te convidar para tomar um café. E dizer o que não foi dito. Existem tantos obstáculos que impedem de eu realizar esta minha vontade. Só não consigo enumerar quais. Começo no orgulho e paro no medo logo em seguida. Apenas os sinto. Mudo de idéia. Calmamente fui observando com atenção os lugares por onde você passou. Um dia andamos juntos, quando a direção era mais importante que a velocidade. Queria ter experimentado coisas novas. Andado por outras ruas. Eu me apaixonaria por você novamente. Se encontrasse um vidente agora mesmo, eu perguntaria se teria a segunda chance com você. Desta vez eu perguntaria qual o melhor livro que leu? O filme predileto. Qual a saudade de infância? Em qual enrascada se meteu? Não sei a descrição de um dia perfeito para você. Nem o que você ainda não fez e quer fazer. Não tivemos o nosso fim de semana chuvoso. Semana passada, um amigo contou-me sobre um site novo. Há muitas coisas pelas quais você se interessaria por lá. Eu lembrei você. Queria ter contado a você hoje. Sabe qual é o problema? Não sabemos aceitar críticas destrutivas. Então por que precisávamos nos destruir? Nem é fácil se desculpar com uma secretária eletrônica.
sábado, 3 de maio de 2008
Cena de cinema
“Nina sou eu. Você deve ser Beto. Sou irmã de Pedro. Ele pediu para entregar isso a você”. (Estende o fino envelope pardo, ele o pega.) “Ele disse que eu deveria levar um embrulho. Não me disse o que era exatamente. Só falou em um pacote. Disse que você saberia do que eu estou falando. Engraçado isso porque eu não sei do que estou falando. Um envelope que não parece ter dinheiro dentro. Na verdade parece ter nada dentro de tão fino. Devo levar algo bem maior. E então, cadê o pacote do Pedro?” (Vai até o quarto. Volta com um pacote embrulhado com jornal) “Uma troca de encomendas. Música bacana que está tocando. Bacana mesmo. Quem é? Ahn? Morrissey? Nunca ouvi falar! The Smiths? Tem um filme com este nome, não é? Eles até casaram depois na vida real. Qual é o nome deles mesmo? Sim, o Pedro prometeu-me uns trocados se eu fizesse este favor. E você o que vai dar-me em troca?”. O beijo foi bom, não foi? E mais ainda tudo que seguiu. A garota bonita. Cuidava da sua casa e de você também. Fazia o seu jantar. Esperava por você. Massageava os seus pés. Tratava os seus calos. Você está surpreso pelo quê? Já deveria saber que este é o final para uma história sem papel principal. Desse mais valor. A estrela de seu filme queria reconhecimento. Demonstrações de importância fazem a diferença para uma mulher. Ei, esta não é aquela parte em que a mocinha vai embora? Tira tudo do armário, joga sobre a cama. Chora, descabela-se por minutos. As lágrimas secam no rosto borrado. Ela costumava usar olhos pintados. Há uma rota que segue dos olhos às faces, ao queixo. Roupas direto para a sacola. Emboladas umas às outras. Ficam sós os cabides no armário. Soca tudo no porta-malas. Chora ainda. Entra no carro. Dá a partida. Olha para a casa pela última vez. Pega a estrada. Para na encruzilhada. "Qual o lugar em que você não me encontrará? Talvez nem mesmo me procure". Chora mais um pouco. Decide-se. Escolhe o caminho da esquerda. Um outro carro toma o caminho da direita. E vai para algum lugar longe, longe para você, herói. Sem aviso prévio, nem bilhete, nem pista de onde vai estar. Nada nada para trás. Ele chega à casa e descobre que a mocinha pegou suas coisas e foi embora. Só os cabides ficaram pendurados. Os mesmo cabides que você entregou a ela quando foi morar em sua casa. Um doce convite seu, "eu quero você aqui em todos os dias". Na próxima vez pense melhor sobre o que é deixar a emoção ficar do lado de fora da porta. Dizer que amou dois meses depois já nada vale. Eu queria ter dito tudo no momento em que estava ocorrendo, mas você não estava aqui para ouvir. A validade expirou para quem jamais inspirou. O herói sai da casa, corre até o carro. Entra apressado. Liga o carro. Encosta a cabeça sobre o volante. Sussurra a pergunta "por quê". Sai em arrancada. Tenta achar a rota de fuga da mocinha. Apanha o maço de cigarros sobre o painel do carro. Alguns cigarros caem. Um fica entre os dedos. Não acende. Está nervoso. Mantém-no apagado. Pára na encruzilhada. Sai do carro, o motor ainda está ligado. Vai em direção ao caminho da esquerda. Abaixa-se. Vê as marcas de pneu na área fina do caminho. São recentes. Levanta-se, vai em direção ao caminho da direita. Abaixa-se. Vê as marcas de pneu. São mais recentes. Aprendeu com um índio, seu amigo, a ler pegadas, marcas de pneu e o que mais pudesse indicar pistas. Entra no carro. Vira à direita.
domingo, 27 de abril de 2008
Depois de ontem
Minha cabeça dói. Meu corpo dói. Uma incrível vontade de ficar na cama. Que dia é hoje? Que horas são agora? Manhã ou tarde, não faço idéia. Não sei por quantas horas eu consegui dormir. Talvez tenha sido apenas minutos. Não tenho conseguido pregar os olhos. Tenho medo de sonhar com ela indo embora. A cama ficou grande demais. Vazia demais. O teto está familiar demais. O tic-tac presente demais. No armário, agora cabem minhas roupas e sobra vazio. Nada me faz companhia. Cinqüenta e seis metros quadrados nunca foram tão largos. Nunca vi tantos espaços. Nunca vi tantos cantos. Nunca vi tantos vazios dos quadros nas paredes. Nunca vi tantos cabides vazios no armário. Nunca vi tanta luz entrar pelas janelas sem as cortinas. Nunca ouvi tanto silêncio. Um apartamento pequeno dias atrás. Um apartamento enorme agora. Após seis anos, sinto ter perdido o rumo. No ar ainda está o seu perfume. Sinto falta dela. A estante também já não é mais a mesma. Seus livros já não se deitam por lá. Seus CDs também não. No dia anterior ao de ontem, eu bebia nosso vinho preferido. Nosso shiraz. Sempre havia uma garrafa em casa. Quando não eu, ela comprava. Bêbado, clamava sua volta. Eu ainda acreditava em sua volta. O retorno de quem ainda não havia partido do meu peito. Ela entrou por aquela porta tantas e tantas vezes em meio aos meus delírios alcoólicos. Dizia-me que estava de volta para ficar para sempre. Sempre. Eu queria ouvi-la para sempre. Tanta segurança minha. Inútil segurança. Como pensar que ela não precisava me ouvir, me sentir. A minha presença bastava. Está ali com ela já era prova de que ela era mais especial que qualquer outra. É tarde agora, que foi embora. Sem ao menos ouvir que eu a amava. Escondi isso de mim por tanto tempo. Sem flores, nem beijos, ela se foi. Preferia pensar que ela era apenas alguém com quem compartilhar o teto. Alguém bem tranqüila, de bom gosto e bonita. Alguém de olhos brilhantes, que me atiravam olhares profundos e ternos. Achava aqueles olhares piegas. Pareciam quererem prender-me. Angustiava senti-los sobre mim. Minha liberdade não poderia ser colocada em risco. Nunca, nunca. Estava para nascer mulher a quem eu realmente entregaria minha atenção única e exclusiva. Agora sinto falta... Já liguei para seu número. Não atende. Em que canto do mundo ela está agora? Eu quero que ela volte. Trocaria os meus três desejos pela volta dela, se um gênio encontrasse. Eles saíram em lua de mel. Ela se casou. Meu melhor amigo a levou para bem longe de mim. Não notei a troca de olhares. Nem os bilhetes escondidos. Muito menos os e-mails. Bem debaixo do meu nariz. Ela me disse que me amou muito, mas o seu amor não suportou tanta distância. Tanta indiferença. Juro que não notei que a perdia dia-a-dia. Juro que não notei a decepção em seus olhos. Um dia ela pediu um filho.Achei um absurdo. Ainda tinha muito que viver antes de ser pai. E ela também não tinha cara de mãe. E não dava para imaginar uma criança, atrapalhando nossas viagens, ainda que não viajássemos. Tanto egoísmo. Vou morrer sozinho? Talvez. As decisões foram erradas. Jamais pude imaginar que ela precisava de doces palavras para alimentar o seu sorriso. Quando a conheci, ela sorria na mesa com as amigas. Estava feliz e aquela felicidade atraiu-me. Era um porto seguro para minha acidez. E assim, partimos felizes em uma viagem que durou seis anos. Nem sempre estávamos no mesmo vagão daquele trem. E foi assim que ele a tirou de mim. Meu melhor amigo. Aproveitou-se da minha falta de tato, da minha cegueira, da minha surdez. Depois de ontem, minhas esperanças partiram junto com sua nova vida. Quando a vi se casar com ele, tive certeza de quão tolo tinha sido. Que nem aliança quis por no dedo. Que nem quis dizer na tristeza e na doença.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Salto
Sem sono, fiquei espiando a cidade do alto. Vazio. Silêncio. Um barulho de um carro, ou outro. Latidos de alguns cachorros da vizinhança. Ronronar de gatos, talvez em algum telhado. Brisa gelada trazia a sensação da noite. O cheiro estava bom. De olhos cerrados, meu silêncio foi interrompido por passo após passo. “De quem seria aquele som? Alta ou baixa? Gordinha ou magrinha? Pelo caminhar eu diria que tem um pouco mais de 1,70 e magra. Talvez bem magra”, pensava comigo. Depois de ouvir tantos tic tics naquele piso do trabalho, um granito verde sujeira, não poderia não deixar de aprender o comportamento das mulheres e o salto. Havia diferença entre a relação peso, altura e salto. O som poderia ficar mais agudo ou grave conforme o peso e altura da dona. Só faltava saber que aparência tinha. “Loira? Morena? Mulata?” Ruiva! - quando abri os olhos. E de longos fios. Ainda não dava para saber se bela àquela distância, mas só poderia ser alguém de bom gosto e bela. Vestida em um casaco de náilon que lhe cobria até os joelhos... E uma bota, de salto longo e fino, de algum material que lhe permitia colar em sua pele... Pelo brilho, talvez fosse vinil... E era vinil... De que lugar estava vindo ou para onde estava indo? Esta pergunta ficou sem resposta. As botas pareciam ultrapassar a altura dos joelhos. Não dava para ver um pedacinho sequer de pele da sua carne magra. Suculenta? Eu em minha mente respondia sim. Desejava sim. Imaginava sim. Ah... eu queria aquela mulher. Seria ela uma boa vítima para a saga dos meus desejos? Subia a rua apressada. Minha mente também se apressava em pensar algo, antes que ela sumisse caminho a fora e talvez não mais a identificasse em rostos que se apresentassem na multidão. “Que tal colocar uma velha fantasia em prática?!” Eu ainda tinha aquela máscara de esqui e o revólver de brinquedo. Na minha época, revólveres de brinquedo bem parecidos aos reais era um excelente brinquedo. Ganhei de meu padrinho, guardei-o até hoje. Nunca quis dar a ele o destino do lixo. Mesmo quando a ex insistia para que eu me livrasse dele. Cansei de dizer que campanha de desarmamento era só para armas reais, não para a minha réplica de um três oitão com cabo Madrepérola. Casaco, luvas, moto, máscara, revólver... É isso! Apanhei tudo e desci correndo. Lembrei antes de pegar fitas adesivas para colar nas placas da moto. A brincadeira poderia ficar séria se ela pudesse me identificar depois. Polícia na cola de um cidadão apenas safado era tudo que eu não queria. Fitas nas placas. Máscara no rosto. Luvas nas mãos. Revólver na cintura. Saí da garagem como um louco. Parecia que a brisa trazia o perfume dela, então pude farejá-la. Meus ouvidos também podiam ouvir o som de seus saltos, já um pouco distantes. Mas isto facilitava muito. Perfume mais forte, som mais alto. Encontrei-a duas esquinas depois. Não tive dúvidas do que deveria fazer, encorajado pelo vazio das ruas e o tesão. Girei a moto rapidamente em sua frente. Ela assustou. E parou... Apontei a arma para ela e disse "Quieta!, nem pense em gritar! Ou leva um pipoco! Ouviu dona?" De fato bonita. Muito até. Ela levantou os braços para cima e sacudiu a cabeça que sim. Bolinei um pouco. Parei quando notei que estava na fronteira entre um homem realizando uma fantasia e tornar-me um bandido a ser identificado pela polícia. Mas alguma lembrança eu ainda precisaria carregar comigo. E de repente poder continuar aquela brincadeira de forma consentida. Peguei o seu casaco de náilon, subi na moto e voltei para casa. Como seria sua voz?
quarta-feira, 26 de março de 2008
Sem ofensas
Poucos móveis, uma cama, um armário, uma mesa e um sofá. Roupas amontoadas sobre os poucos móveis. Livros, discos e CDs. Muitos espalhados aqui e ali. Gostava de fotografar. Algumas de suas fotos, as preferidas, preenchiam as paredes, protegidas por fino vidro e moldura barata. Pedro prepara-se para fumar o seu cigarro da noite: o único do dia. Há três meses decidiu parar de fumar, após recomendações médicas e algumas... Estava ficando com uma certa falta de potência. Foi obrigado a ouvir seu médico contar-lhe sobre pênis e artérias. Fumaça e artérias. Entupimentos, dilatação e artérias. Dificuldade de ereção e artérias. Agora fumava apenas um cigarro por dia. Sempre a noite. Desligava o telefone. Levantava o braço da vitrola. Tirava o disco da vitrola. Certificava-se que nenhum barulho soava de seu apartamento. Até as torneiras eram verificadas. Silêncio total. Respirava fundo. Pegava o maço de cigarro. Sacava o cigarro da noite. Esvaziava a cabeça do dia. Tinha de prestar sua atenção única e exclusivamente ao cigarro. Seu vício, ao qual dizia adeus aos poucos e sem querer. Fumava desde os quinze anos, quando aquela garota moderninha lhe apresentou o cigarro e depois o sexo. Desde então o cigarro o acompanhou. Mesmo quando estava sem uma companhia, acendia um cigarro e minutos depois alguém aparecia pedindo fogo. Sorte quando era uma gata, azar quando a moça era mais feia que um cão chupando manga. Se ficasse então forçando amizade, era melhor apagar o cigarro do que engatar uma conversa cansativa. Papo de mulher feia e carente era chato demais. Havia sempre algo desinteressante a ser dito. Já as gatas... Achava nada mais sensual do que uma bela mulher com o cigarro na mão. Feia não. Era obrigado a precipitar o fim de seu cigarro. Pedro estava na janela de seu pequeno apartamento de escritor. Cigarro em riste, isqueiro na outra mão. Leva o cigarro a boca. Prepara-se para girar a roldana. Quase vê a fagulha. Acende o cigarro. O primeiro trago. Sorvia a fumaça lentamente. Minutos únicos do dia. Trimmmmm, a sua barulhenta campainha e a queda de seu cigarro ao chão. Lamenta. Teria de sair para comprar outro, pois este era o último do maço. Trimmmmmmmm, a sua campainha horrível. "Um dia ainda troco esta campainha e nem vou pedir desconto no aluguel". Pega o cigarro no chão. Dois passos. Joga o cigarro na lixeira sob a mesa e coloca o isqueiro sobre a mesa. Seis passos. Olha através do olho mágico. Resmungado, entreabre a porta. "Isabela...". Permanece segurando porta. "Não vai me convidar para entrar". "Estava pensando em não convidar". "Não seja grosso!". Isabela empurra porta, Pedro e entra. Pedro fecha a porta. "Eu grosso? Este aqui é o lugar onde eu moro e não tenho que receber a quem eu não convidei". "Para Pedro! Eu vim aqui conversar numa boa". "Isabela, ultimamente você nunca conversa numa boa. Mas tudo bem. Algum motivo você deve ter tido para vir até aqui. Afinal foi você mesma que saiu dizendo que eu era o pior dos homens. O mais ordinário". "Falei de cabeça cheia". "Diga logo, o que você quer de um homem ordinário". "Te devo desculpas". "Sei, e?". "E eu queria que nós ficássemos numa boa". "Não vai dar! Não foi você que enviou torpedos dizendo que estava com outro cara e se divertindo". "Era mentira, não estava com ninguém. Apenas saí, bebi demais e fiz besteira". "Ok. Veio dizer apenas isso?". Pedro se levantou e foi procurar o casaco sobre a mesa. "Eu sei que banquei a idiota. Mas eu te amo". "Tarde demais para você saber disso. Se não se importa, eu preciso sair agora". "Eu sei que você não quer falar comigo. Não atende os meus telefonemas. Eu preciso você". "Isabela, você me ofendeu". "Eu sei que você deve estar chateado comigo". "Você me chamou de broxa! Sabe o que significa isto para um homem? Não me importa se você bebeu ou não. O que você pensa ou deixa de pensar. O que você sente ou deixa de sentir. O fato é que você me ofendeu". Pedro acha o casaco. "Bata a porta quando sair".
quarta-feira, 12 de março de 2008
Como salvar uma vida
Ah... Que preguiça de me levantar da cama. Eu tenho mesmo de levantar? Cinqüenta anos. Enfim chegaram. E como pesam. A coluna sente bem isso. Tenho de me levantar com cuidado. Um movimento errado e o hospital será o lugar mais desejado por mim para passar o aniversário. Dor física é ruim, e esta idade do condor não coopera. Que nada! Pior mesmo é sentir o peso e o vazio. Lembro que aos vinte e dois anos eu me perguntei se eu preferia a vida tranqüila e segura ou cheia de aventuras e incertezas. Optei pela primeira opção. Entre o trabalho que adoraria e não pagava bem e o trabalho bem pago que eu detesto, escolhi o que eu detesto. E detesto até hoje. Se eu tivesse optado pela segunda? Como eu estaria agora? Talvez, à esta hora, não tivesse uma esposa na cozinha preparando um bolo surpresa, que já não é surpresa para ninguém. É a mesma coisa todo ano. Um bolo de chocolate que já não é o meu predileto. Velinhas que apagam e acendem. Chatérrimas! Só mudam os genros e noras. São quatro. Dois filhos e duas filhas. Esta é a parte mais fácil de lembrar. Quando eram pequenos, viajar para o litoral era o mais perto que eu conseguia chegar de uma aventura. Brigas e mais brigas. Gostos muito diferentes. Amo, mas penso em deixá-los, é verdade. Penso em fugir. Penso em não ver os netos nascerem. Tenho saudades da época em que eu sonhava em ser guitarrista de uma banda de rock. A guitarra ficou para lá em prol da ambição de economista. Economizei até as emoções. Minha mãe deu a minha guitarra para o primo Lucas. Ele é cinco anos mais novo do que eu. Careca. Tem uma banda. Aderiu a moda dos carecas lustrados. Viaja pelo Brasil inteiro... De pub em pub. Alguns fãs... Esse sonho era meu que foi passado para ele quando recebeu a minha guitarra de bandeja. Sabe de uma coisa?! Eu deveria ter partido com aquela francesa! Louca. Hippie. E muito, muito gostosa. A ruiva de olhos verdes e cheiro de desejo. Costumava usavar jeans sem calcinha e uma camiseta regata, sem sutiã. Por cima usava uma camisa nos dias mais frios. Mas na maioria do tempo ela estava nua comigo. Era a delícia dos meus dias que pareciam perfeitos. Mas ela era louca demais. Os Baseados eram fatos reais em sua vida. Tive medo de ir com ela. Tive medo dos dias sem limites. De sonhos inteiros. Se eu não tivesse medo... Iria atrás dela agora! Nem sei se ela ainda vive, mas este parece ser um bom motivo para partir. Aproveitaria para aprender a falar francês. Foi assim que eu a conheci. Com desejo de falar francês. Eu deveria ensiná-la português e ela o francês. Aprendi na verdade a ouvi-la, principalmente seus desejos. Quantas noites passamos na praia? Ríamos muito. É tão bom rir. Ríamos de tudo. Tudo era bom. A cabeça vazia não fazia planos, não fazia contas, mas sentia tudo. Os dias tinham gosto. Tinham cheiro. E se eu fecho os olhos, volto ao passando e sinto. Era só o momento. Eu conseguia sentir cada segundo passar. Sabia ter emoção. Lembro do dia chuvoso. Andávamos abraçados enquanto as gostas de água nos refrescava. Eu desenhava nossa felicidade. Joguei os cadernos fora um tempo atrás. Também esqueci como se desenha. Desenho agora apenas cifrões com números à direita. Quanto mais dinheiro os clientes ganham, mais eu ganho. E todos ganham. E posso comprar o carro do ano. E posso trocar os móveis da casa. Estando novos e daí? Alguém irá usá-los e usarei outros. A esposa fica feliz e eu fico feliz. Fico feliz mesmo? Fico feliz que nada. Acaba que é só uma forma de eu tentar não lembrar das minhas escolhas. Pensar no que eu quero adquirir e traçar planos de como adquirir. Mas hoje não tem jeito. Cinqüenta anos é simbólico. É o ponto de parada na vida em que somos obrigados a pensar sobre ela. A vida pela vida. E se o saldo for negativo, hora de salvá-la. Será que dá para eu fugir pela janela?
sábado, 1 de março de 2008
A mulher ideal
Uma mulher é capaz de conhecer um homem e já vê-lo em um altar! E claro, com ela ao lado, a noiva total acompanhada do kit pais, padre, padrinhos, convidados, pompa... Isto é outra coisa que não entendo. Por que gastar tanto por tão pouco tempo. Sei lá, já que quer casar, um Cartório já está bom demais! Fica tudo registrado em um papel que ela pode ficar contemplando por várias horas e nós nos arrependendo por toda vida. Afinal, ficar preso a uma só mulher só significa abrir mão de todas as outras. Esta idéia fixa de querer casar é perigosa. Limita demais os nossos movimentos, literalmente. O que é que tem se eu virei a cabeça para olhar outras pessoas na rua. E daí se em 99,99999999% das vezes estas pessoas são mulheres?! E se eu apenas quiser sair para a tradicional cervejinha com os amigos. Poupe-me de ouvir "você não me dá atenção", "você me abandona" e outras tantas frase do grupo crise geral. Argh. E ainda quer que eu fique em casa depois de ouvir toda esta ladainha. E de preferência sorrindo. E se eu fico, nem posso prestar atenção na TV. Elas falam demais, demais mesmo. Meu ouvido não consegue receber tantas palavras disparadas por minuto. E ai de mim se reclamar! Porque seria estar pronto para ouvir algo como "grosso", "insensível". Que mal há em curtir momentos a dois sem ter que pensar no futuro?! Sem dar nome aos filhos que não sabemos se queremos ter? Que mal há em admitir que seguimos regras bem diferentes? Não é que sejamos insensíveis. Mas convenhamos, mulher ama demais, fala demais, preocupa-se demais, reclama demais... Ainda tem a tal intuição feminina. Aí é que desconfia de tudo mesmo. Qualquer detalhe, qualquer alteração mínima, ela diz que nota, quando nem mesmo eu notei. E lá vem outra ladainha. Às vezes são mudanças sutis e ela já vem inquirindo. E se eu estiver mentindo mesmo? Vai preferir ouvir que eu estava com a vizinha? Com a gatinha que trabalha na lanchonete da equina? Já estou cansado de dizer a Marta que está tudo bem. Que ela não tem o que se preocupar. Afinal, estou lá com ela e deveria ser já o suficiente prova de meu afeto por ela. Mas não, vive sentido coisas. Só atrapalha mais. Tudo é demais. Depois vem a cobrança por ligações telefônicas. Já viu como é bolsa de mulher? Tenho sempre de ligar duas vezes porque na primeira vez ela está caçando o celular dentro da bolsa. Se estiver a fim de ficar uns dias em casa sozinho ou com os amigos e apareço cheio de saudade, imaginando que seria um encontro legal, lá vêm tantas cobranças em forma de avalanche. Eu apenas estava com saudades. E tenho de responde a uma verdadeira investigação sobre a expressão do meu rosto, os dias que já se passaram e nem me lembro de detalhes de como se passaram. Qual a importância de tudo isso? Não estamos ali e na hora? Esta não deveria ser a hora certa? Fica desperdiçando o tempo em que estamos juntos com reclamações do tempo em não estávamos juntos. Fica obcecada por controlar e põe tudo a perder. Gata, gata... Já te disse que não estou a fim de cobrança. Que eu não sei interpretar sinais, apenas sei falar diretamente e espero o mesmo de você. Aliás, esta coisa de interpretar sinais é horrível. Por que tem coisa que não há com o que se preocupar, mas fica aí cheia de grilos e nem aproveitou o meu abraço. Recusou o meu beijo. Marta, você fala demais. Se fosse contanto coisas engraçadas, me fazendo rir... Tudo bem, mas quase sempre é só problemas e ciúmes. Você é linda e chata. Se você se preocupasse mais em ser afável e aproveitar a vida, eu amaria você. Não voltou a falar comigo depois disso. Já há uma semana que Marta não liga para contar que quebrou a unha, ou o cachorro amanheceu latindo esquisito. E creio que não voltará a ligar. Ela não ouviu o que eu disse e ficou intuindo o que eu não disse. Preferiu ouvir entrelinhas que não existiam. Paciência.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Nenhum amor ordinário
Era a noite de folga dos casados. As esposas fariam a noite das garotas e deixariam os maridos relaxarem em paz. Eu não sou casado. Pelo menos penso que não sou. Ou sou? Coralina não tem alma de esposa. Tem alma de cúmplice, minha doce e tenra cúmplice. E até aquela noite, ainda não conhecia Coralina. Júlio, Marcelo, Carlos, Luiz e eu costumávamos sair nas noites de quinta-feira, era o nosso pacto. Sempre que um de nós casava, a reafirmação do nosso tratado era exigida. O nosso rito não poderia ser quebrado, sob pena da maldição do pau-ir-a-pique. Nossa fraternidade começou ainda na faculdade. E mulher nenhuma teria o direito de interferir. Pois antes de todas elas, nós já éramos amigos e saíamos sempre nas noites de quinta-feira. Mas não tem jeito. Tem sempre aquela que não consegue ter vida própria e precisa atrapalhar a individualidade do marido. Mulher tem de entender que casar não significa viver em função dela e dos filhos. Nem creio que ela tenha de viver em função do homem e dos filhos. Enfim, uma noite sem celulares. Nada de ouvir a célebre pergunta "a que horas chegará em casa", ou sua variação "ainda vai demorar". Os rapazes até aprenderam a manter a calma na primeira ligação. Já na segunda... Ah... A segunda ligação! Esta era fatal para a noite. O respectivo marido levanta-se bufando, despedia-se dos amigos e seguia o caminho pisando duro. Os que ficavam encolhiam os ombros. Faziam qualquer comentário sobre a pegação de pé. Os Ficavam sem graça. E a noite perdia a graça. Logo outras ligações haviam de acontecer. E todos partiam em direção aos seus lares doce lares, ou não tão doces assim. Marido a marido. Restava sempre eu. O solteiro de trinta e uns anos. Lance mais chato para um solteiro. O último solteiro da turma. Todos os meus amigos casaram. Eu não queria casar. Pelo menos não àquela altura da vida. E será que já estou? O fato era esperar pela pessoa certa e eu acredito que ela chegou naquela noite especial. Nada dos botecos de sempre. Noite ímpar merecia evento ímpar. Então fomos a uma casa noturna daquelas animadinhas. Ficava no outro lado da cidade. Ver umas meninas dançando em trajes mínimos seria legal. E quem sabe desfilando de peitinhos de fora? Logo que entrei a vi. Um palco pequeno. Esquisito mesmo. Mas ela de certa forma brilhava. Cantava com sentimentalismo extremo. Bem à moda Piaf. I gave you all the love I got. Parecia trazer o coração na boca e nos olhos. A canção de já alguns anos de idade soava como nova para mim. I gave you more than I could give. Esqueci-me dos amigos. Sentei-me na mesa da frente. Estava vazia. Reparei que havia homens no recinto, com risos e mulheres esfregando-se em seus colos. Copos em suas mãos. Eu sentia ela. I gave you love. Moça de cabelos longos. Olhos grandes. I gave you all that I have inside. Boca que quer beijo. Um dos rostos mais bonitos que eu vi. Corpo que queria cuidar. Voz meiga que queria ouvir. And you took my love. Ainda consegui manter certa dignidade naquela espelunca. Beleza crua em um vestido que mal a vestia. Encantadora. You took my love. Chorava em sua canção por um amor que não era comum. Quis cuidar dela. Ao fim do show dei um jeito de ludibriar o leão de chácaras que impedia a entrada dos mais animados. Provoquei dois bêbados. Fiz com que pensassem que falavam um do outro. Aí quando a confusão estava armada e o tal armário tentava restabelecer a ordem do lugar, esgueirei-me pelo corredor a fora. Cheguei a uma porta que poderia ser um camarim. Cruzei os dedos. Que ela estivesse sozinha, desejei. Abri. Ela olhou-me desconfiada, mas nada disse. Aproximei-me. Perguntei se ela não queria tomar um café longe dali. Riu. Você é maluco? Não vai aceitar o meu convite? Café? Café! Só café, hein! Só café. Tá bom. Vamos. Ia quebrar a promessa? E correr o risco da maldição do pau-ir-a-pique? Calma aí?! Logo eu que nem casado era! Pedi para que a princesa esperasse uns minutinhos. Sentei na mesa com os rapazes. Fiz um social. Pedi um uísque que naquele lugar seria certamente falsificado. Minutos depois aleguei não passar bem. Pedi licença e fui-me com a gata, que a esta hora já esperáva-me no carro, conforme o combinado. Longe dali descobri Coralina. Seu nome tinha sido dado por sua mãe solteira. Era homenagem a poetiza. Sua mãe morreu um dia depois do parto. Fora deixada com a tia. Uma pobre alma com muitos filhos e fome. Muita fome. Aos cinco anos fora entregue a uma mulher que prometeu cuidar dela. Mas em lugar disso, a explorou. Quando pôde, correu para mundo que era melhor do que aquela vida mais ou menos. Passou, frio, fome até achar para quem trabalhar. Gostava de cantar e se tornou cantora naquele lugar. Coralina. Quis levá-la para casa. Nada aconteceu naquela noite. Acordei feliz com sua presença sonolenta. Pedi que não fosse embora. Iria trabalhar, mas a noitinha estaria de volta. Ela riu. Disse que também tinha de trabalhar. E ela se foi, porém não sem antes ter ouvido o meu pedido e prometido que voltaria mais tarde. Ela voltou. Então a tive em meus braços. E em muitas outras noites ela voltou. As noites de quinta continuavam reservadas para os amigos. Mas quando ela voltava, eu já estava esperando por ela, que despertava-me pelo paladar, provocava-me com sons. Acendia-me pelo olhar. Enlouquecia-me pelo toque. Com o seu jeito moleca, a encontrei um dia apenas de short e tênis, sentada sobre as pernas e arrumando minhas coisas em uma caixa. Não resisti. Quer casar comigo?
domingo, 27 de janeiro de 2008
In-Sônia
Desde que Camila foi embora, passo por altos e baixos. Superei a ausência de Camila, pelo menos acho que superei. Se bem que eu ainda me pego pensando nela. E pior, acreditando que um dia voltarei para casa e a encontrarei aqui. Aos trancos, aprendi a viver a nova vida. Mas volta e meia, quando tudo está bem e eu até sinto uma certa tranqüilidade, algo acontece. Desta vez um problema tirou o meu sono. Exatamente o intervalo de tempo entre o meu último encontro com Sônia e a tentativa de revê-la. Não pude dormir por um mês. Na primeira semana, tentei várias receitas para pregar os olhos por algumas horas. Alongamento dos músculos. Respiração abdominal. Repetir mentalmente uma palavra relaxante. Regulagem da temperatura do quarto. Troquei o colchão. Joguei o despertador fora. Nada, absolutamente nada, funcionou. Ir ao trabalho no dia seguinte era complicado. Não dormir, por si só, é um problema. Mudança de humor. Falta de energia. Baixo rendimento. Essa mistura é bombástica. Um dia veio a gota d'água. Só não perdi o meu emprego porque abri o jogo com o meu chefe. Disse entender, mas com um ultimato em riste: ou eu resolvia o meu problema, ou deveria procurar outro emprego. Foi aí que resolvi procurar Sônia. Mulher comum. Era a rainha da dieta, e conhecia todas as já inventadas de cor e salteado. Só mais tarde dei-me conta que ela é linda e fazia tudo que podia para esconder sua beleza. Depois de algumas aventuras, resolvi que era hora de manter um caso sério. Um relacionamento que não fosse totalmente casual. E que também não fosse totalmente sério. Sem família. Sem amigos comuns. Sem obrigações. Sem compromissos. Sem eventos sociais. E para ser sincero, eu queria mesmo alguém com quem pudesse fazer sexo seguro, sem a necessidade de bancar o romântico de vez em quando e lembrar-se de datas. Botei na cabeça este objetivo e encontrei Sônia. Distraída. Lia um cartaz de filme. Um que entraria no circuito de cinemas brasileiros em questão de dias. Puxei assunto sobre aquele filme. Ela correspondeu. O papo fluiu. Eu tinha chances com aquela moça, pensava. Doce. Gentil. Acabamos assistindo ao filme juntos. E esta foi a única vez que isto aconteceu. Da saída do cinema, já fomos para sua casa. E depois que estávamos em sua cama conversando lorota, formulamos o nosso acordo. Consegui pôr todas as minhas cláusulas. As mesmas mencionadas acima. Nada de família, amigos, eventos sociais etc. Ela também disse as delas. Algumas formulamos juntos. Freqüência. Horários. Concordamos em sermos leal um com outro. Faríamos todos exames necessários que comprovassem a mais perfeita ordem fisiológica. Poderíamos estar com quem quiséssemos, mas prática sexual sem camisinha com outros não seria permitida. Sem camisinha, só entre nós. Formamos um casal que vivia uma relação passional. Encontrávamos-nos nas noites de segunda, quarta e sexta por um único motivo: sexo. Com o tempo, concebemos nossa rotina: tirávamos as roupas, transávamos, vestíamos e eu partia sem dizer uma só palavra, nem ouvir uma só palavra. Às vezes um pouco confusos, mas nada tínhamos a dizer um ao outro. Também nada sabíamos sobre a vida um do outro. Um dia nosso ritual foi quebrado. Sônia apresentou-me o resultado de um exame. No nosso acordo não mencionamos filhos. Ela não fez de propósito, eu sei. Fiquei transtornado. Disse coisas ruins. Disse que eu não tive filhos com a mulher que amei, quanto mais com outra que era apenas um caso. A magoei. Disse que tinha feito de propósito para casar comigo. Obrigar-me a ficar com ela. Ela limitou-se a despejar aos meus pés caixas do anticoncepcional que tomava. Guardava sempre as últimas doze caixas. Marcava com etiqueta a que tomou em cada mês. Dia de início e fim. Guardava também as notas ficais das compras. Extremamente metódica. Disse que abriria uma ação contra o laboratório. Ainda assim, o filho nasceria. Explicou-me que em caso de registro de criança com pai incógnito, seria movida ação de averiguação da paternidade obrigatória. Ela seria obrigada a apresentar um pai. E eu era o pai. Disse que dispensava pensão para o filho, ou qualquer outra obrigação. Só não abriria mão de que o visitasse algumas horas por semana. Pedi que tirasse o filho. Ela disse que não faria isso. Seria um risco que ela não estava disposta a correr. Afinal tinha culpa de nada. Apenas aconteceu. Eu podia ver em seu rosto, o esforço que fazia para não chorar. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Pediu-me que fosse embora. Que voltasse outra hora. Para conversarmos melhor. E eu fui. Nunca testemunhei tamanha força interior. Em nenhum momento gritou, ou me xingou. Mesmo com toda minha rispidez. Daquela noite em diante não conseguia dormir. Não sei ao certo se pela dor de consciência ou pelo medo da paternidade. Como seria este filho? Eu nem mesmo tinha planejado a mãe. Só a considerava alguém boazinha. Alguém com quem eu não precisava me preocupar e nem me faria mal. Nunca a visto como mãe de um filho meu e isto assustáva-me. Também não esquecia todas as duras palavras que a proferi. Ela não teve culpa. Também não tinha planejado. Vai ver que ela estaria pensando, tanto quanto eu, que eu não seria o pai planejado. Naquela tarde, conforme recomendado pelo meu chefe, tomei um táxi e fui ao apartamento de Sônia. O porteiro impediu-me a entrada. Disse que ela tinha se mudado umas duas semanas atrás, após ter sofrido um acidente. Explicou que ela foi atropelada por uma moto. Nada grave, mas os susto lhe valeu a perda do filho. O apartamento estava a venda. Perguntei pelo novo endereço. Ele não sabia. Ela não deixou. Fiquei confuso. Um grosso. Um idiota. Não sabia o que fazer. Ao menos precisava pedir desculpa. Tive uma idéia. Procurei a imobiliária. Fingi estar interessado no apartamento. Fui até lá com a corretora que apresentou canto por canto do apartamento, que eu já conhecia. Vazio parecia maior. Ótimo, quero comprá-lo! O preço negociado. O dia da assinatura do contrato seria o dia para encontrar Sônia. Ela apareceu. Magra. Mudou a forma de pentear os cabelos. Usava óculos escuros. Estava vestida de forma diferente. Linda. Ela é linda. Quando ela me avistou, simulou não me conheceu. Deixou que fôssemos apresentados. Queria ver até que ponto daria continuidade a mantermos a farsa de que não nos conhecíamos. Fui eu que cedi. No momento da assinatura. Disse que foi a única forma de reencontrá-la. A corretora e outros funcionários da Imobiliária ficaram furiosos. Sônia limitou-se a dizer a todos que a chamassem novamente quando novo comprador fosse encontrado. Levantou-se. Deu-me as costas.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
De cabeça para baixo
O final da adolescência é marcado pelo recebimento das regalias adultas. Identidade. Carteira de motorista. Serviço Militar. Profissão. Festas. Embriaguez. “Proibido para menores de 18 anos” já não nos provoca abalos sísmicos. Em compensação, na minha época, já podíamos ser presos por uma menina assanhada. Fortes sentimentos e emoções, com intensos relacionamentos... Que nada! O meu final foi diferente. Preparações para o vestibular. Em casa não dava. Violão, televisão, aparelho de som, atari, vídeo cassete, sessão da tarde. Tinha de achar um outro lugar. E assim veio sorrateiramente o hábito de deixar-me estar horas e horas na biblioteca pública da cidade. Um bocado de livros havia por lá. Muitos chegaram àquelas prateleiras por meio de doações. Nem tanto por benevolência. Mais por praticidade. Melhor, por livramento. Geralmente, depois da morte do dono é que os livros chegavam lá. Em outras famílias, era questão de espaço. Os melhores vieram da coleção pessoal do professor Paschoal. Clássicos da literatura. Relíquias em várias línguas. Tinha uns até em latim. Entre um estudo e outro, eu olhava para eles. Depois do vestibular, voltava lá para apanhar um emprestado. Foi aí que a conheci. Cara fechada, de poucos amigos. Olhar vigilante. Parecia uma criança emburrada. Eu podia notar um quase bico naquele rosto. Ela nunca sorria. Como ela é bonita, pensava. Não poderia escapar da minha atenção. Gostava do mau-humor daquela Bibliotecária. Eu estava apaixonado por ela. Passei a ir todos os dias novamente. Mais de uma vez por dia até. Sempre vários livros emprestados. Pilhas. Tentava puxar assunto sobre o tempo, enquanto registrava meu empréstimo em todas as fichas à mão. Mas era muito rápida no atendimento. Eu nem conseguia dizer oi. Quanto mais dizer "que dia chuvoso". "Que calor". Ficava observando sua letra depois. Retilínia. Em um dos livros aprendi que a forma de escrever pode revelar seu jeito de ser. A letra dela indicava caráter intransigente, baixa flexibilidade nas negociações, possibilidade de respostas impulsivas. Ei, esse negócio funciona mesmo! É claro que eu nem lia todos os livros. Só lia os que poderiam trazer informações sobre ela ou que me fizessem imaginar ela. Li um guia de viagem. Roteiros românticos eram indicados. Ainda que não lesse todos, era a melhor desculpa para eu chegar perto dela. Sempre ela. No crachá estava escrito Maria das Graças. E que graça! Arrumando os livros na prateleira, eu também dava um jeito de me aproximar. Parecia um cachorro farejando o ar do seu perfume, fingindo estar lendo um livro. Moço, o livro está de cabeça para baixo. Uma criança notou meu estado de espírito. Mas no balcão ainda era melhor. Seu perfume infiltrava-se em mim. Fragrância floral fresca e cítrica. Bem ela: agridoce. É bonita, pensava. Silêncio por silêncio. Muitas horas ali a colher fagulhas de atenção. Afastei-me um pouco dos amigos, mas aproximei-me do meu alvo, que até então me ignorava. Me contentava, no entanto, com sua presença. Sua agridoce presença. Arriscava um bom-dia e silêncio eu ouvia. Um dia realmente fiquei chateado. Ela trocou o perfume! Como ela foi capaz de fazer isso comigo?! Quebrei o silêncio. Mudou de perfume? O quê disse?! Mudou de perfume? Você notou. Sim. Mas você sabe que isso não se faz? Como?! Não faz parte das regras mudar de perfume. Regras?! Uma mulher deve manter-se fiel ao seu perfume. É uma marca registrada. Um homem que a tenha amado ou simplesmente conhecido, jamais a esquecerá. É mesmo? É mesmo, todo mundo sabe. Eu acho que você está lendo livros demais. Ah... minha azedinha. A lembrança de um perfume conta tantas histórias... Esta última parte eu só pensei. Não tive coragem para ir muito além. Mas é fato que depois daquele dia uma grande evolução ocorreu. Peguei ela olhando para mim por cima do óculos. E quando levantei o rosto e virei-me para ela, rapidamente baixou os olhos. Mas eu vi e sorri muito por dentro. Outros dias se passaram. Silêncio por silêncio. Já havia, no entanto, olhares cruzados. Quebrou o silêncio. Você lê muito mesmo. Gaguejei. Éééééé... Não podia perder a oportunidade de jeito nenhum! Respirei fundo! Não pisquei. Quer ir ao cinema comigo? Ela sorriu. Sim.
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